A disputa do simbólico

Li nesta semana, em um grupo de whatsapp, um texto assinado pelo ex-ministro e companheiro Gilberto Carvalho sobre a encruzilhada do PT na disputa das Mesas Diretoras do Congresso Nacional. Seu primoroso (e extenso) texto é um convite ao debate. Por isso me permiti discordar de sua posição pragmática sobre esse assunto e decidi fazê-lo publicamente (por razões exposta ao longo do texto). Para aqueles que tiverem a curiosidade de ler (antes ou depois) o texto dele, intitulado “As difíceis encruzilhadas da vida…”, basta clicar aqui.

É cativante a eloquência do companheiro Gilberto Carvalho ao defender sua posição neste debate. Partindo de várias premissas verdadeiras e corretas ele, com uma retórica assaz convincente, pretende levar parte da militância que ainda se referencia no Partido dos Trabalhadores a conclusões completamente desconexas com a realidade presente. Infelizmente valorosos companheiros, que por anos se acostumaram com a lógica do “siga o mestre”, se satisfazem com um texto rebuscado para não arredar o pé da posição que alguém lhes disse ser a melhor. Também não seria para menos. O recurso argumentativo, que coloca a questão como “um ponto aberto ao debate” vindo de alguém que “já teve uma posição diferente sobre o tema”, é muito convincente para qualquer um que prefira ficar com as posições pragmáticas ao invés de questionar e se debruçar sobre uma análise mais criteriosa (e conexa com a realidade) sobre o assunto em questão: o apoio aos golpistas na disputa das mesas diretoras do Congresso Nacional.

A força do PT, aquela que mobilizou (e, com dificuldade, ainda mobiliza) as massas sociais dos grupos mais desprestigiados de nossa sociedade, sempre veio do seu papel simbólico. Foram o desejo de transformação, a luta contra um sistema político patrimonialista arcaico e corrupto, e o sonho de outro mundo possível, mais justo e fraterno, que levaram nosso partido, através de Lula, à presidência do Brasil em 2002. Todavia também foi a tática da conciliação através da política de alianças que, a partir da Carta ao Povo Brasileiro, corroeu o capital simbólico do projeto petista ao longo dos últimos 13 anos. Nós, que havíamos passado anos na oposição atirando pedras nas janelas blindadas da Casa Grande, não tínhamos ideia do quão furiosos, e nada republicanos, seriam os ataques de nossos inimigos. Quando a pedrada do mensalão atingiu nosso palácio de cristal, nosso projeto quase ruiu. Foi o alicerce, nossa base sólida de apoio nos movimentos sociais referenciados no PT, que manteve nosso projeto em pé. Com a transformação progressiva e perceptível na vida de milhares de pessoas, foi sobre esse alicerce, com as pedras de cada uma de nossas conquistas, que construímos uma fortaleza onde antes havia apenas vidro. Recebemos ondas de ataques cada vez mais impetuosos, e resistimos. Nossos adversários se viram forçados a mudar de estratégia. Perceberam que, mais do que atacar a fortaleza, era preciso minar nosso alicerce, nossas bases, e atacar o capital simbólico do partido. O estandarte do combate à corrupção empunhado por nós ao longo de décadas, precisava ser manchado cada vez mais com a sujeira da corrupção até nossa vergonha, invariavelmente, nos fizesse larga-lo ao chão. Os grilhões que taticamente aceitamos usar precisavam ter suas correntes diminuídas cada vez mais até o ponto em que perdêssemos qualquer movimento. Por fim, entenderam, depois de tanto tempo, que a única chance que teriam de “retornar ao poder” seria através de um golpe rápido e certeiro sobre nosso projeto, cuja base social em seu alicerce havia sido corroída e desgastada ao longo dos anos. Assim caímos.

Não à toa, neste momento falamos em reconstrução do PT e das esquerdas no Brasil. Voltamos ao começo de tudo, à disputa do simbólico. Há, ainda, alguma esperança na construção de uma ponte sobre esse abismo, cada vez maior, que existe hoje entre a cúpula e a base do partido. São nossas ações no presente que precisam reivindicar o legado que nos foi espoliado. Não vivemos um momento republicado, não há legalidade no golpe. Assim não há que se falar em “acordo com golpista” para se evitar um mal maior. Não existe qualquer escrúpulo entre as colunas do inimigo. Ingenuidade nossa seria acreditar na benevolência daqueles que já demonstraram temer mais à Mão Invisível do Mercado, do que à nossa parca e desorganizada base social. O passado recente nos mostrou isso. De que nos serviu a vice-presidência do Senado quando o STF determinou o afastamento de Renan Calheiros? Ter a presidência da Comissão de Assuntos Econômicos atrasou em quantos dias a aprovação da PEC 55? O golpe segue seu cronograma sem que nossa participação em mesas ou comissões o atrase um dia sequer. Talvez seja justamente por essa percepção da realidade que a Senadora Gleisi (presidente da CAE) tenha sido uma das primeiras a manifestar sua opinião contrária à composição ou negociação com os golpistas. Outra premissa quase verdadeira é a de que a “Casa do Povo” está fechada com as portas fechadas para a sociedade. O certo seria afirmar que as portas estão fechadas para nós dos movimentos sociais organizados de esquerda. Nunca fomos, de fato, aceitos naquele espaço. O Parlamento nos tolerava enquanto tínhamos o Executivo nas mãos. Por outro lado, que dificuldade tiveram os militantes pró-intervenção militar de entrar no plenário da Câmara para atentar contra a Constituição? Quando deles saíram presos de lá de dentro?

A pergunta que nos resta, portanto, é: o que ganhamos apoiando ou negociando com golpistas? Varridas as ilusões de qualquer esperança em obter posição tática capaz de fortalecer nosso projeto (ou ao menos impedir o avanço do inimigo), o que nos sobra são alguns cargos para acomodar velhos militantes e algum “status” ao ego de poucos parlamentares. Tenho a certeza de que nosso projeto é maior que isso. Agora é hora de resistir e utilizar essa posição de grande valor simbólico para reorganizar nossas bases nas ruas. Abrir mão do simbólico neste momento significa tornar ainda mais íngreme a ladeira pela qual despenca nosso partido rumo ao abismo da história. Petista não vota em golpista! Essa é a palavra de ordem neste momento capaz de nos impulsionar no processo de reorganização e reconstrução do Partido dos Trabalhadores.

Por fim, precisamos recordar aos nossos companheiros e companheiras que se acostumaram aos gabinetes e salas fechadas que a base social do PT sempre foi maior do que sua militância. Nosso legado civilizatório vai muito além do número de filiados de nossa legenda. Assim, portanto, é um erro grosseiro, neste momento em que a sociedade espera de nós uma resposta e, quiçá, um novo horizonte utópico, querer restringir esse debate como algo que “só diz respeito à militância do partido”. Não existe bem maior para um partido de esquerda do que seu capital simbólico. Por isso, é preciso fazer esse debate publicamente, sem medo de nos submetermos ao crivo da opinião popular, pois somente assim construiremos o caminho que nos levará a um novo período de crescimento, avanços e conquistas para aqueles que mais precisam de nós: a classe trabalhadora brasileira.

Petista NÃO vota em golpista!

Muda PT!

 

Daniel Mittelbach
Militante do Partido dos Trabalhadores

ptista-nao-vota-em-golpista

As difíceis encruzilhadas da vida…

Por Gilberto Carvalho

Mais uma vez o Partido dos Trabalhadores vê-se numa encruzilhada, devendo tomar uma decisão polêmica que divide opiniões e provoca discussões apaixonadas. No caso de agora se trata de nossa posição partidária na eleição das mesas diretoras e presidências da Câmara e Senado.

Pensando bem, sempre foi assim em nossa construção. O vigor dos debates em torno das decisões constitui uma das pedras fundamentais de nossa cultura e mesmo, diria, de sua solidez. Quanto mais ampla e abertamente debatidas, as decisões tomadas têm chances de serem corretas e ainda fortalecem nossa marca de democracia interna.

Neste sentido, resolvi “colocar a mão no formigueiro”, simplesmente pelo dever de tentar contribuir com o processo, sabendo que minha posição provocará polêmicas que reputo saudáveis e necessárias.

Nestes dias devo confessar, inclusive, que minha posição a respeito desta “encruzilhada” sofreu alterações, justamente em função de uma série de conversas que desenvolvi com companheiras e companheiros, além dos textos lidos.

Vamos ser claros: a posição mais tranquila neste momento, e que eu sustentava até agora, é de que estando numa situação especial de golpe sofrido, é reclamada uma posição mais dura e clara do nosso Partido, declarando que não votaremos em golpistas e tentando assegurar na justiça a ocupação dos postos  que, por proporção do número de parlamentares, temos o direito de reivindicar e ocupar.

A imprensa cumpre, como sempre, seu papel nos dividindo entre “principistas” e aqueles que estão loucos para ocupar boquinhas e nomear companheiros desempregados pelo Golpe e pelas Prefeituras perdidas. Vale dizer, não há caminho bom para nós na opinião publicada, que contamina, de maneira muito forte, nossa militância.

As manifestações que nos chegam da militância são, em ampla maioria, por uma posição de nitidez, de afirmar através deste voto o NÃO ao golpe e aos que o construíram.

Há, no entanto, algumas reflexões que precisam ser feitas; arrisco algumas:

– É preciso lembrar que esta tomada de decisão é apenas uma batalha dentro de uma guerra ampla que estamos travando contra os verdadeiros autores do golpe, o capital financeiro internacional, nacional e seus lacaios e representantes. Sabemos que os golpistas que estão hoje na proa do processo podem (e já estão sendo) descartados rapidamente na medida em que deixam de ser funcionais ao processo. Quem viu a arrogância de Geddel, Jucá e outros ontem sabe do que estamos falando hoje; além disso estamos assistindo o desespero do Temer em entregar rápida, eficiente e fielmente o “produto” encomendado, antes que os brasileiros tomem ciência e venham as consequências das denúncias demolidoras que já vieram e virão inevitavelmente.

– Para nós, é preciso ter claro que, perdido o Executivo, o Parlamento é a esfera de atuação institucional que nos resta no plano nacional. Por isso, temos advogado a necessidade de uma atuação forte, consequente e muito articulada de nossas bancadas com os movimentos sociais e a sociedade civil.

– Quem conheceu a Câmara e o Senado de nossos velhos e bons tempos, se espanta com a mudança de clima e comportamento das atuais Presidências, seja em relação aos processos internos, numa ruptura progressiva dos métodos democráticos, seja no empenho para barrar qualquer participação popular em comissões e mais ainda nos plenários. A atuação de Renan Calheiros e Eduardo Cunha foram marcadas pela centralização ditatorial, rompendo tradições de convivência democrática e acordos históricos em torno da ocupação dos postos nas Casas. Foi muitas vezes na “porrada” que nossos parlamentares conseguiram deter atitudes ainda piores destes Senhores e permitir, por exemplo o acesso de militantes e dirigentes dos movimentos sociais aos espaços das duas Casas.

O comportamento da Polícia Legislativa Federal, que naturalmente não é inventado por ela, mas dirigido pelos Presidentes das duas Casas, é de uma parcialidade e de uma violência inéditas.

– É verdade também que o Parlamento tem sido palco de derrotas clamorosas e gravíssimas para nós e nosso Projeto. Quando o governo e sua maioria resolvem passar o rolo compressor, o máximo que conseguimos é adiar por alguns dias as duras decisões que estão deformando o País, a Constituição e assaltando o direito dos pobres, realizando um eficaz, violento e rapidíssimo reenquadramento do País no modelo neoliberal mais duro. Portanto não há que ter ilusões de que poderemos ter grande vitórias, com ou sem a participação nossa nas mesas e na presidência ou relatoria de comissões. A verdade é que enquanto o governo Temer derrete perante a Sociedade e fracassa em seu modelo econômico, apresenta, no entanto, um desempenho de vitórias no Legislativo de causar inveja aos nossos melhores tempos. Portanto trata-se de um palco de lutas fundamental nesta Guerra.

– É preciso reconhecer, ao mesmo tempo que os poucos espaços que ocupamos têm sido de grande valor em nossa luta de resistência ao Golpe e golpistas. Basta ver no Senado nossa atuação na CAE (Comissão de assuntos econômicos), na Comissão de Direitos Humanos e Sociais, assim como na Câmara em comissões como a de Direitos Humanos, a de reforma agrária, entre várias outras. A luta verdadeiramente heroica de nossos parlamentares transformou estes espaços em trincheiras de resistência, de denúncia que criaram muitas dificuldades para os golpistas e animaram nossa militância em sua luta. Além disso, é consenso que o desempenho de nossos Parlamentares na luta contra o golpe nos encheu de orgulho e serviu como estímulo incrível à resistência popular.

– Vamos lembrar ainda que neste ano o Legislativo será o campo de batalhas importantíssimas, como a da Reforma da Previdência e Trabalhista, peças chaves na implantação do novo modelo, e que vão atingir em cheio os mais pobres. Sem falar na incrível criatividade da fábrica de Projetos, MPs e PECs em que se converteu o Planalto e suas filiais nas duas Casas, sempre prontas a favorecer o Capital na linha das privatizações, da quebra de nossa Soberania, e perseguição e criminalização progressiva a todos os que resistem a seus projetos.

– Penso que o raciocínio central que devemos fazer é este: como estaremos mais armados e capacitados para fazer o enfrentamento contra o inimigo e contra esta lógica central do golpe? Como teremos mais instrumentos para nos articularmos com a Sociedade e dificultar a passagem deste rolo compressor, no mínimo aumentando o desgaste e fazendo crescer no meio do povo a consciência da natureza real do golpe? Como dificultaremos e tentaremos impedir ou retardar com mais eficácia a atuação dos agentes do Golpe?

– Acho que a resposta é óbvia e a realidade já provou: tendo participação adequada na mesa, presidindo comissões e relatorias, você tem mais condições de impedir e dificultar a marcha golpista.

– A indisfarçável preferência da imprensa dominante para que tenhamos uma posição principista só reafirma esta convicção. Quando desvirtuam nossa luta por espaço democrático como simples busca oportunista de espaço no aparelho é porque certamente para eles é melhor que não os ocupemos e fiquemos apenas nas atitudes declaratórias, de denúncia bem intencionada, mas com baixa eficácia real. É preciso atentar para este aspecto.

– Penso ainda que a grande questão é analisarmos primeiro se é possível conquistar estes espaços na base da pressão ou do recurso judicial sem ter que realizar acordos em torno dos nomes da Presidência (até porque são processos separados de escolha e eleição).

– E em segundo lugar, e não menos importante, é a forma como vamos ocupar estes espaços. Esta é uma discussão central, a que não vejo dar-se o devido destaque. Porque é preciso ficar claro que aqueles que os ocupam devem fazê-lo em nome e obedecendo os princípios e determinações do conjunto da Bancada e, por consequência, do Partido. Ocupar tais espaços para se tornar fiador da “institucionalidade e estabilidade” das Casas, de fato não nos leva a nada. Assim como não vale sacrifício nenhum servir-se dos espaços para montar mais e mais aparelhos deste ou daquele grupo.  Neste sentido considero extremamente relevante que este debate rompa com a lógica da ocupação do aparelho por correntes internas ou por “personalidades parlamentares”. E o histórico de cada pessoa que se dispõe a uma função tem que pesar nesta hora. Chega de promover quem se aproveitou de nossos coletivos para se projetar e nos abandona no primeiro sinal de crise de nossa viabilidade, como o lamentável episódio da Senadora Marta Suplicy. É preciso assumir compromissos com os objetivos coletivos. É isto que temos que enfrentar de fato neste momento.

– Convenhamos: a situação é grave demais para que nos dividamos entre “principistas” e “oportunistas” e para que brinquemos de divisão de espaços para satisfazer egos ou interesses de grupos.

– Diante deste quadro proponho, sem nenhuma certeza definitiva, mas com forte convicção:

1) vamos realizar o debate dos próximos dias sem posições pré-definidas, definitivas, e vamos evitar alimentar a imprensa com informações ou “impressões” que servem apenas para que eles explorem nossa divisão e fragilidade; vamos ter a capacidade de ouvir a posição do outro, dos outros, sem o preconceito que nos impede de considerar as contribuições que sejam diferentes das nossas. Nessa mesma perspectiva é importante aproveitar os poucos dias que nos restam para ampliar ao máximo o debate interno com nossa militância, buscando esclarecer, demonstrar toda a complexidade da decisão a ser tomada, permitindo o máximo acesso da militância ao debate através das tribunas de redes sociais do Partido e das Bancadas. Sem isso fica difícil para nossa militância compreender todos os elementos que estão envolvidos no debate, e ela tenderá, naturalmente, para as simplificações e rotulações alimentadas pela imprensa do inimigo.

2) Vamos aproveitar o momento e formular coletivamente um projeto de efetiva democratização (ou de combate à tendência autoritária e autocrática) das Casas. O Senador Requião apresentou uma proposta, gravada em vídeo, com pontos muito interessantes para este Projeto, e que merecem ser discutidos por todos nós. Vamos permitir que continuem as arbitrariedades em relação à sociedade civil, ao acesso de grupos organizados às casas? Vamos aceitar as tais “comissões especiais” que cortam o caminho do debate democrático e permitem aberrações como o processo das teles (PLC 79)?

3) Vamos procurar construir a unidade entre as forças de esquerda e centro esquerda. É preciso dar mais organicidade à nossa articulação com nossos aliados, através das lideranças de minoria na Câmara e Senado. No caso de candidaturas à Presidência das Casas de partidos aliados precisamos tratá-las com o maior cuidado, examinando sua viabilidade e seriedade e aproveitar o momento para estabelecer estratégias de unidade e de ampliação de nossos votos pelo menos em temas específicos. Para o governo interessa a atual clivagem estabelecida entre os “pró e os contra o golpe.”  A nós interessa ir além.

4) Vamos aproveitar o ensejo para enfrentar o debate da unidade de nossas bancadas. O que explica nossa dificuldade em reunir e decidir posições a ser seguidas por todos os nossos parlamentares? O que explica as atuações individuais que se dão ao direito, com muita naturalidade, de contrariar posições tomadas pelo conjunto da Bancada, tendendo a transformar em “cultura” aceita o que na realidade é uma ofensa ao princípio da democracia partidária?

5)  Vamos analisar a real possibilidade de assegurarmos os espaços (que considero o essencial), sem a necessidade de compromissos com o voto em candidatos a Presidente do bloco golpista. Devemos buscar aliados na busca da prevalência desta tradição que é coerente com os princípios constitucionais e lutar duramente por este objetivo. Se for possível, estaremos no melhor dos mundos. Só alerto que o recurso puro e simples à via judiciária vai esbarrar muito provavelmente numa das famosas decisões que considerarão o assunto como “interna corporis”, assunto interno das casas, e o judiciário lavará provavelmente as mãos.

6) Se, finalmente, formos colocados ante uma inevitável disjuntiva, ou vota-se numa das candidaturas ou estaremos excluídos dos principais espaços, não tenho receio em opinar  que devemos sim negociar com altivez, coletivamente, não apenas para assegurar os espaços, como para obter compromissos definitivos dos novos presidentes com a tomada de medidas que restabeleçam o funcionamento democrático das Casas e o retorno do acesso legítimo do povo à Sua casa. Em função dos objetivos principais destacados, eu corro o risco desta atitude que evidentemente nos trará sim desgastes. É preciso reconhecer isso, com a maturidade de quem trava batalhas e trava a grande guerra. É necessário reconhecer que o Parlamento é um espaço sim da negociação, de se sentar com o adversário, com o inimigo, para se buscar avançar posições no xadrez das lutas. Votar eventualmente num representante do grupo golpista não significa endosso de suas atitudes, e sim, conforme as circunstâncias, constrangê-lo a adotar posições que nossa força real no parlamento e na sociedade nos permitem exigir e impor como condição. O voto popular que determinou a dimensão significativa e a qualidade de nossas bancadas nos determina esta maturidade em nossa atuação.

7) Considerados estes objetivos e princípios, devemos enfrentar o debate com nossa militância, sem medo da complexidade do tema, sem medo das simplificações, e aproveitando para resolver problemas de nossa conduta parlamentar que vêm se acumulando feito cultura estabelecida ao longos dos anos, alguns dos quais, apenas alguns, mencionei acima. Se o fizermos com seriedade, coragem e honestidade tenho a convicção de que estaremos fazendo o melhor para combater o que é o centro do projeto inimigo e dando uma importante contribuição para a reconstrução de nosso Projeto.

Tenho muita convicção que 17 poderá ser o ano de retomada de um processo que nos permitirá a revitalização do nosso Partido e ao mesmo tempo, nosso reencontro com a Sociedade, especialmente com os pobres. Sabemos muito bem que o fracasso cada vez mais evidente do projeto golpista não fará cair por gravidade em nossos braços o apoio e o engajamento da grande massa traída e progressivamente espoliada por eles. Há possibilidades reais das famosas propostas populistas, “para-fascistas”, mistificadoras, que se consolidam cada vez mais.

Por isso tudo, não podemos perder tempo e aproveitar cada episódio, cada “encruzilhada” para lançar uma pedra a mais na construção do nosso Projeto. Um projeto que traga às maiorias não apenas a saudade dos bons tempos dos nossos governos, mas a esperança e a confiança de que é possível, neste Brasil mergulhado em profunda crise, construir um caminho novo que nos levará à retomada da construção do crescimento com justiça, do acesso aos direitos fundamentais, da plena democracia e da convivência pacífica entre os diferentes.

Com nossa ação unitária, ousada, de irmos ao encontro do povo com muito diálogo, e com a autocrítica de quem se sabe comprometido não com os erros passados, mas com a correção de rotas e condutas, haveremos de conquistar de novo a confiança e o apoio das maiorias que clamam por dias melhores.

Isso é o essencial neste momento. E tudo o que fizermos precisa obedecer à lógica desta construção.

Gilberto Carvalho

Integrante da Assessoria da Liderança da Bancada de Oposição do Senado.

A extensão de nossos equívocos

A partir desta quinta-feira, 12 de maio, inicia-se um novo capítulo na história do Brasil e também na militância de esquerda, principalmente do PT e da CUT. Minha geração será incumbida da difícil tarefa de fazer uma avaliação desapaixonada dos erros e acertos desse ciclo que se finda. Não falo aqui da catarse pela qual passam aqueles que, no mínimo, desde a década de 90 ajudaram a construir o projeto que o PT consolidou à frente do país. Essa geração não tem como se desvencilhar da carga emocional de seus 25-30 anos de militância. Já nós, que temos 25-30 anos de idade, precisamos seguir atentamente os ensinamentos marxistas de estudar atentamente a história e aprender com ela.

Não há quem negue a consolidação de direitos, a ampliação das oportunidades e o avanço social dos últimos 13 anos. Mas a nós não nos cabe fazer a defesa apaixonada dessas conquistas, sem ignorar os custos e as condições objetivas que nos levaram a elas. É claro que comemoramos e seguiremos defendendo cada uma delas. Entretanto, é nosso dever avaliar como chegamos até aqui e qual a extensão de nossos equívocos. Vivemos nestes 13 anos, da Carta ao Povo Brasileiro ao afastamento de Dilma Roussef da presidência, um período de conciliação de classes que o ex-presidente Lula sempre descreveu muito bem: “um governo onde todos ganham”. O processo de escalada social foi descrito como o ascenso daqueles do “andar de baixo” que subiram alguns degraus, sem todavia, incomodar àqueles do “andar de cima”.

Eis aqui nosso primeiro equívoco, o de acreditar que esse processo reduziu a desigualdade social. Esse é nosso conto de fadas moderno. Ao contrário do que pregavam os militares de que “era necessário primeiro fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo”, nos últimos anos o que fizemos foi fazer o bolo crescer e dividir com todos. O problema era o tamanho de cada pedaço. A política desenvolvimentista sempre priorizou as extremidades da régua social, em primeiro lugar os mais ricos, em segundo lugar os mais pobres, em terceiro os demais. E demos muito mais aos ricos do que aos pobres, iludidos por uma questão de percepção. Aos que nada tinham, o pouco que se lhes deu muito parecia. Aos que tudo tinham não havia migalhas suficientes que saciassem sua ganância. E enquanto o bolo crescia, essa lógica prosperou. Ao final do processo, erradicamos a fome nivelando os miseráveis à classe trabalhadora inserida na sociedade de consumo e criando um imenso exército de reserva, digno de qualquer país europeu pós-revolução industrial no início do século XIX. De outro lado, enriquecemos banqueiros e donos dos meios de produção até onde sua ganância conseguiu nos chantagear. Assim, na prática, aumentamos a distância real entre as classes antagônicas eternamente em disputa no sistema capitalista.

O segundo equívoco foi a forma encontrada (ou aceita) de se fazer essa transformação social no Brasil. Jogar o jogo da política brasileira. E o jogo, meus caros, o jogo é pesado. 500 anos de uma cultura política centrada no coronelismo (das capitanias hereditárias aos redutos eleitorais) e no patrimonialismo (dos escambos ao dinheiro na cueca) fizeram do jogo do Poder um lupanar que, definitivamente, não é para os incautos. E esse é o problema de chegar ao governo, sem, contudo, chegar ao poder. Dos manuais mais básicos de política, Maquiavel já nos advertia que não era possível governar sem “sujar as mãos”. O problema foi maquiar essa relação, não deixar claro para a população que havia uma disputa interna sobre os rumos do país. O erro foi não nos armar para fazer o enfrentamento direto, para realizar as reformas estruturais, para mudar as regras do jogo, para consolidar uma condição objetiva de se chegar, de fato, ao poder. Quando Lula falou que o “governo era igual feijão, só funcionava na pressão”, achamos que essa era a senha para nossa mobilização, quando na verdade não passava de uma advertência para dizer que a pressão do Capital sempre foi mais efetiva do que a nossa. E ao não perceber isso, o movimento sindical e o conjunto dos movimentos sociais se fecharam, cada um em sua pauta umbiguista, sem olhar para o todo. E competimos entre nós para ver quem fazia mais pressão e conquistava mais migalhas, em vez de construir a necessária unidade para enfrentar o real inimigo.

O terceiro equívoco foi interno. Deixamos de fazer formação, e por isso mesmo, perdemos a noção do todo. A consequência direta foi que deixamos de disputar a sociedade. Sim, se é verdade que o governo deixou de fazer a democratização dos meios de comunicação e de disputar ideologicamente os rumos da educação, permitindo o surgimento de uma geração plena de direitos que os vê como atávicos e sequer é capaz de reconhecê-los como conquistas, também é verdadeiro que tampouco nós e nossas entidades cumpriram com esse papel. Abdicamos de formar e disputar a opinião pública.

Interno também, o quarto equívoco é a ilustração do famoso paradoxo de Tostines. Foi a consolidação de uma majoritária fisiológica no PT e na CUT que garantiu a tranquilidade do governo na construção da governabilidade através de uma maioria fisiológica no congresso, ou foi a construção da governabilidade através de uma maioria fisiológica no congresso que permitiu a consolidação de uma majoritária fisiológica no PT e na CUT? Seja uma ou outra, pouco importa, o fisiologismo de muito militantes e parlamentares serviu para arrefecer a luta em diversos momentos. Agora, mais próximo ao fim do ciclo, quando a conjuntura não mais facultava essa possibilidade, os fisiológicos enfrentaram um dilema. Alguns, com alguma galhardia, tentam recuperar sua audácia e valentia. Outros, simplesmente, abandonam o barco ou trocam de trincheira.

Por fim, o último equívoco é o que podemos cometer daqui para frente. Nossa tarefa, a partir da autocrítica, é buscar novos (ou velhos) caminhos para trilhar, evitando os erros do passado. Não há porque renegar nossa história, a menos que queiramos uma desculpa para cometer os mesmos erros no futuro. É hora de se reinventar. Investir na formação política e na construção da unidade da esquerda, sem sectarismos, sem arrogância. Disputar a opinião pública, a mente e o coração das novas gerações. E, por fim, como nos ensinou o saudoso Mario Lago, do auge dos seus 78 anos, após a derrota de Lula na eleição de 89, quando alguém perguntou “e agora, o que nós vamos fazer?”, com sua tranquilidade histórica: “Uai, a gente começa tudo de novo”.

Protagonista, coadjuvante ou espectador?

 

Imagine a seguinte imagem: um trem que carrega sonhos por aí. Abstraia aqui sonhos como ideias, pensamentos, desejos, vontade de construir um mundo melhor. Qual seria seu lugar neste trem? Sentado na estação, vendo ele chegar e partir? Dentro do trem, como passageiro ou maquinista?

O maquinista é quem conduz o trem. Acelera ou diminuiu sua velocidade, escolhe entre as rotas possíveis, calcula distâncias, contorna contratempos, enfim, faz tudo para que o trem chegue ao seu destino. O maquinista é o protagonista.

O passageiro segue a viagem junto com o trem. Ele contempla a paisagem, convive com os demais passageiros, divide espaço com a carga, por vezes aumentando-a com seus próprios sonhos, alimenta a esperança de chegar ao destino, por vezes dialogando com o condutor sobre o melhor caminho. O passageiro é o coadjuvante.

O espectador é aquele sentado à estação. Este apenas observa os trens chegarem e partirem. Por vezes é subtraído por uma súbita vontade de embarcar, mas antes mesmo que se decida o trem já partiu. Ele aprecia a movimentação de trens que vem e vão, bem como de seus passageiros que embarcam e desembarcam a cada momento. É natural que ele, algum dia, já tenha sido passageiro, mas certo dia resignou-se com a vida e preferiu ficar na estação.

Cada estação é como uma fase da vida. Em algumas permanecemos por mais tempo, em outras menos. Mas os trens carregando sonhos estão sempre a passar. Cabe a nós decidir qual papel queremos interpretar. Podemos ser todos eles, cada um a seu tempo. Não há um melhor do que o outro, cada qual cumpre sua função. Todavia essa decisão é só nossa e não pode ser delegada. Por isso também não nos cabe ser ávidos em julgar a escolha do próximo. E aqui também reside a diferença entre a coletividade e a individualidade.

Eu quero ser protagonista. Quero conduzir o trem. Mas a vida me convenceu de que o coletivo é mais importante que o indivíduo. Por isso, não faz sentido ser maquinista de um trem vazio. É preciso que meus sonhos e minha habilidade em conduzir o trem instiguem outros a quererem embarcar como passageiros, trazendo seus próprios sonhos e ajudando a chegar ao destino. Caso contrário, mais vale pegar meus sonhos e embarcar como passageiro no trem de outro à seguir viagem sozinho…

Desabafo

Das pistas lotadas por aqueles que se auto movem às calçadas abarrotadas de trôpegos andantes que quase despencam do meio-fio para se encontrar com o asfalto, o que a rotina nos roubou? Da jovial moça de vestido branco ao distinto cavalheiro de casaca preta, qual o valor de cada um naquele momento único? No instante em que tudo para apenas para refluir milésimos de segundo depois, qual a trilha sonora que no embala? Em um mundo de pessoas tão diferentes, do gesto singelo ao ardor revolucionário, que diferença cada um faz? Como quantificar o incomensurável? Quando fechar os olhos, de braços estendidos e pés cravados à beira do precipício, para sentir o lufar da brisa não é o bastante. Quando o corpo flutua querendo alçar voo rumo ao intangível. Quando o aroma mais doce invade o nariz e aguça o paladar. Quando frio ou calor já não mais importam, pois, concomitantes, gelam a barriga e aquecem o coração. Quando sinestesia deixa de ser uma palavra para, apenas, ser. Que lugar reservei a ti e aos bilhões que te fazem companhia? Que lugar a mim foi reservado? Qual a hora marcada? Quais frivolidades tomam conta de nossos pensamentos e surrupiam o foco daquilo que realmente deveria importar? E o que, de fato, importa? Tudo ou nada e o que houver entre eles. Tão singular e tão igual, esta é a sina da humanidade da qual aos poucos nos esquecemos. Importarmo-nos com os outros parece ser a melhor forma de cuidarmos de nós mesmos. O silêncio cobra seu preço. A buzina me alerta que o sinal já abriu.

A mídia e os trabalhadores

Li recentemente um texto muito interessante sobre a relação dos trabalhadores com a chamada “grande mídia”. O ponto de partida, para compreender o que diz o autor no texto abaixo, é um conceito muito difundido nos cursos de Comunicação Social: não existe isenção e imparcialidade na mídia.

É a época da publicidade para as assinaturas. Os diretores e os administradores dos jornais burgueses arrumam as suas vitrines, passam uma mão de tinta pela tabuleta e chamam a atenção do passante (isto é, do leitor) para a sua mercadoria. A mercadoria é aquela folha de quatro ou seis páginas que todas as manhãs ou todas as tardes vai injetar no espírito do leitor os modos de sentir e de julgar os fatos da atualidade política que mais convém aos produtores e vendedores de papel impresso. Estamos dispostos a discorrer, com os operários especialmente, sobre a importância e a gravidade daquele ato aparentemente tão inocente que consiste em escolher o jornal que se pretende assinar?

É uma escolha cheia de insídias e de perigos que deveria ser feita com consciência, com critério e depois de amadurecida reflexão. Antes de mais, o operário deve negar decididamente qualquer solidariedade com o jornal burguês. Deveria recorda-se sempre, sempre, sempre, que o jornal burguês (qualquer que seja sua cor) é um instrumento de luta movido por idéias e interesses que estão em contraste com os seus. Tudo o que se publica é constantemente influenciado por uma idéia: servir a classe dominante, o que se traduz sem dúvida num fato: combater a classe trabalhadora. E, de fato, da primeira à última linha, o jornal burguês sente e revela esta preocupação. Mas o pior reside nisto: em vez de pedir dinheiro à classe burguesa para o subvencionar a obra de defesa exposta em seu favor, o jornal burguês consegue fazer-se pagar pela própria classe trabalhadora que ele combate sempre. E a classe trabalhadora paga, pontualmente, generosamente. Centenas de milhares de operários contribuem regularmente todos os dias com seu dinheiro para o jornal burguês, aumentando a sua potência. Porquê? Se perguntarem ao primeiro operário que encontrarem no elétrico ou na rua, com a folha burguesa desdobrada à sua frente, ouvirão esta resposta: É porque tenho necessidade de saber o que há de novo. E não lhe passa sequer pela cabeça que as notícias e os ingredientes com as quais são cozinhadas podem ser expostos com uma arte que dirija o seu pensamento e influa no seu espírito em determinado sentido. E, no entanto, ele sabe que tal jornal é conservador, que outro é interesseiro, que o terceiro, o quarto e quinto estão ligados a grupos políticos que têm interesses diametralmente opostos aos seus. Todos os dias, pois, sucede a este mesmo operário a possibilidade de poder constatar pessoalmente que os jornais burgueses apresentam os fatos, mesmo os mais simples, de modo a favorecer a classe burguesa e a política burguesa com prejuízo da política e da classe operária. Rebenta uma greve? Para o jornal burguês os operários nunca têm razão. Há manifestação? Os manifestantes, apenas porque são operários, são sempre tumultuosos, facciosos, malfeitores.

O governo aprova uma lei? É sempre boa, útil e justa, mesmo se não é verdade. Desenvolve-se uma campanha eleitoral, política ou administrativa? Os candidatos e os programas melhores são sempre os dos partidos burgueses. E não falemos daqueles casos em que o jornal burguês ou cala, ou deturpa, ou falsifica para enganar, iludir e manter na ignorância o público trabalhador. Apesar disto, a aquiescência culposa do operário em relação ao jornal burguês é sem limites. É preciso reagir contra ela e despertar o operário para a exata avaliação da realidade. É preciso dizer e repetir que a moeda atirada distraidamente para a mão do ardina é um projétil oferecido ao jornal burguês que o lançará depois, no momento oportuno, contra a massa operária.

Se os operários se persuadirem desta elementaríssima verdade, aprenderiam a boicotar a imprensa burguesa, em bloco e com a mesma disciplina com que a burguesia boicota os jornais dos operários, isto é, a imprensa socialista.

Não contribuam com o dinheiro para a imprensa burguesa que vos é adversária: eis qual deve ser o nosso grito de guerra neste momento, caracterizado pela campanha de assinaturas, feitas por todos os jornais burgueses. Boicotem, boicotem, boicotem!

 

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Esse texto, intitulado Os Jornais e os Operários, foi escrito em 1916 (há quase um século atrás) pelo italiano Antônio Gramsci, como alerta aos seus colegas trabalhadores.

Parece atual, não? Mas ele apenas nos mostra o quão velha é a velha mídia. Por isto, caros amigos, colegas e companheiros precisamos escrever, produzir e divulgar nossas opiniões, nossas posições, nossas visões de mundo!

 

Este, e outros textos, estão disponíveis na biblioteca do marxists.org

Impressões sobre a marcha dos 30 mil

Hoje, 19 de maio de 2015, mais de 30 trabalhadores tomaram as ruas do centro de Curitiba. Em sua grande maioria servidores públicos do estado do Paraná, majoritariamente educadores. Os mesmos servidores que, há 20 dias atrás, foram massacrados pela ação truculenta da polícia militar que, a mando do governador, não economizou balas e bombas para reprimir por mais de duas horas uma legítima manifestação. Esse fato, de repercussão nacional, marcou também o dia de hoje quando no caminhão de som foi a anunciado que não marchariam até a Praça Nossa Senhora de Salete (palco daquele massacre), mas sim até a Praça 29 de Abril, como foi rebatizada pelos manifestantes. O lugar era o mesmo, a sede do governo estadual, mas hoje foi a primeira marcha até a Praça 29 de Abril. Para sempre lembrar, para nunca esquecer.

Apenas a menção do novo nome da praça já gerava certa comoção nos servidores. Professores e funcionários com os olhos marejados ao lembrarem do que viveram naquele fatídico dia. Contudo havia uma nova chama nos olhares daqueles educadores. Se o moral dos manifestantes individualmente estava abalado, ao encontrarem seus companheiros e companheiras se postando ombro a ombro e marchando passo a passo, um novo ânimo, uma nova energia tomou conta daqueles seres humanos.

Música, dança, alegria, gritos, apitos, faixas, cartazes compunham o enredo daquele belíssimo ato. “Luto pela educação”, o trocadilho genial dava o tom solene, mas aguerrido, que marcava os passos e ditava o ritmo da caminhada. A larga avenida Cândido de Abreu tomada em todas as suas pistas, por toda a sua extensão. Do palácio do governo à praça Tiradentes o que se via era um mar de gente.

Ao se aproximarem da Praça 29 de Abril, várias lágrimas brotavam nos olhos ainda traumatizados daqueles guerreiros e guerreiras que sangraram ao defender a Educação e o Serviço Público naquele local. Alguns receavam. Paravam na esquina, como se um fantasma, uma lembrança, pairasse sobre seus ombros. Mas na força dos seus companheiros davam o passo seguinte, e uma vez sem medo de seguir a caminhada, engrossavam as fileiras que rumavam ao palácio. A pauta? Oficialmente exigir do governo o pagamento da data-base, recuperando o poder de compra de seus salários consumido pela inflação de 8,17% no período. Na prática, todavia, a pauta era recuperar sua dignidade e reconhecer-se em suas novas identidades, a de heróis nacionais.

11110976_10206710438269402_5736380436083382503_nMuitos avaliam as sequências de erros e desacertos do governador que mobilizaram os servidores, em especial os da educação, para o enfrentamento. Em fevereiro a questão da previdência e das aposentadorias. Agora o reajuste salarial. Porém, em minha singela opinião, a semente de tamanha mobilização foi plantada ainda no ano passado, pelo próprio governador, quando ao comentar o resultado do Paraná no IDEB afirmou que a piora no desempenho do estado era culpa dos educadores. Naquele momento ele mexeu com o orgulho de uma categoria inteira (orgulho daqueles que só quem dedica sua vida a lecionar conhece), e plantou a semente. De lá para cá só fez regar com a truculência de seu desgoverno e hoje colhe a luta dos professores e de uma sociedade inteira que não tem medo de dizer: “o professor é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo”.

A Beto Richa parece que a derradeira solução é reconhecer a derrota e pedir para sair.

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